24 de abr de 2011

Dr. Gentil Domingues: um humanista, um formador...


Pensei nele ao amanhecer, assim, do nada, e aí conclui que devia prestar-lhe uma homenagem e não há outra forma, neste momento, senão escrevendo sobre sua essência e fragmentos de sua vida no meu modesto modo de vê-lo e interpretá-lo.

Médico em nosso torrão natal, a cidade de Acopiara, no sertão central do Ceará, professor de nossa língua por vocação, amante da boa escrita, Gentil Domingues, o Dr. Gentil, era pessoa simples, autêntica e de alma pura. Viveu a vida a seu modo, não se importando com clichês e modismos próprios de sua época. Simplesmente vivia a sua maneira.
Chamava-me por Florentino, sobrenome da família de minha mãe. Até hoje não sei o motivo porque assim me nominava e nunca tive a curiosidade de perguntá-lo. Deixa pra lá... Chico talvez não fosse muito agradável aos seus apurados ouvidos e nunca me importei com isso, até gostava. Certamente reprovaria também o Xiko com “x“...
Homem não afeito a vaidades, sua vestimenta sempre foi de cor branca. Não me recordo de tê-lo visto com roupas que não fossem de cor branca, independentemente do local, sejam em festas, solenidades, aulas, enfim, ele era indiferente as liturgias de cada momento social. Era uma de suas marcas. É indissociável imaginarmos a figura de Gentil Domingues sem a cor branca. E o fazia não por orgulho de sua profissão, mas como um dever de ofício. Uma atitude que diz muito sobre sua personalidade.
Várias foram às passagens de sua vida que compartilhei e, dentre as marcantes, uma delas foi quando me convidou para uma churrascaria – a única da época em Acopiara – a fim de participarmos da comemoração de um aniversário. Eu, adolescente, sentei-me a mesa e este me ofertou um copo de cerveja. Logo em seguida, Dr. Gentil foi  convidado a falar homenageando o aniversariante e assim o fez com a maestria que lhe era peculiar. Em seguida, passou-me a palavra. Surpreso, incrédulo, lembro-me de ter balbuciado um conjunto de palavras sem muito nexo. Foi o mote que precisava para buscar conhecimentos em oratória. Era um provocador...
Em encontros sociais ou reservadamente gostávamos de discutir sobre a linguagem de certo colunista de um grande jornal cearense que assassinava o vernáculo - eu apenas molesto - e ainda possuía conteúdo ininteligível, mas era apreciado - e ainda o é.  Sobre a nossa língua, sempre recomendava: “caso a construção de uma frase não lhe soe bem, refaça-a, pois é provável que esteja errada.” Boas lembranças, sábios ensinamentos.
Exerceu a medicina sem o viés mercantilista que hoje impera na profissão e o fez por convicção, por vocação e por amor ao ser humano. Era um humanista...
Por tudo isso e muito mais, Dr. Gentil Domingues será lembrado como um homem que soube viver sem se importar com o que os outros e a sociedade pensavam ou julgavam sobre si. Simplesmente viveu. Deixou um legado que raros o farão.
Este blog, sob todos os aspectos, tem um pouco dele. Agradeci-o em vida. Agradeço-o depois de ter partido. Sempre agradecê-lo-ei.


23 de abr de 2011

O que há em comum entre a Semana Santa e o Mundo Corporativo?

Certamente nos vem à lembrança os inúmeros Best Sellers que conclamam os executivos a praticarem os ensinamentos de Jesus nas relações dentro das corporações e sabemos que a Semana Santa toca os corações, por mais petrificados que sejam. Eis a primeira convergência.  É claro que concordamos com a prática das lições de Jesus e que são perfeitamente aplicáveis nas companhias. Arriscamos a afirmar que há melhorias substanciais no clima organizacional quando dessa forma se conduzem todas as lideranças, fruto de nossas observações ao longo de nossa carreira.
Extraímos num destes livros sobre a liderança de Jesus, intitulado “Jesus, o maior líder que já existiu”, o exercício do autodomínio como um de seus ensinamentos. E Ele não desperdiçava energia. Apesar de ser um recrutador de pessoas (headhunter), Ele nunca se desgastava implorando aos outros que o seguissem ou tentava manobras manipuladoras. Na realidade, Ele treinava os integrantes de sua equipe a “sacudir o pó dos pés” (Mateus 10:14) e continuar seu trajeto caso não fossem bem recebidos e ouvidos. Igualmente orientava a não “lançar pérolas aos porcos” (Mateus 7:6), uma imagem bem forte sobre a relevância de saber onde e com quem compartilhar o tesouro de sua força. Um primor de lição.
Há, no entanto, outra figura bíblica “festejada” neste período, que vem, digamos assim, se destacando de forma semelhante nestes últimos tempos nas organizações.  Trata-se de Judas, o traidor de Jesus. Há uma verdadeira infestação no mundo corporativo. Nem precisamos de pesquisas para comprovar a sua presença ostensiva e seus seguidores, pois as rodas de conversas os delatam. Nas empresas, travestidos de bons moços, geralmente próximos ou integrantes do núcleo do poder ou ainda disfarçados (o que é difícil de detectar), estão sempre dispostos a querer ouvir o seu interlocutor – são exímios ouvintes -, ante seus infortúnios no percurso e esforço para alcançar seus objetivos, quer coletivo, quer individual. E lá vão eles, sorrateiramente e, creiam, sem nenhuma pretensão (risos), contar ao Chefe as últimas novas do “fulano” em sua unidade ou célula, com a interpretação que melhor lhe aprouver, subtraindo ou acrescentando..., de acordo com os seus interesses, que não são lá muito nobres. É evidente que nem todas as pessoas introspectivas, recatadas ou quietas assim se comportam. São apenas sinais, pois os falastrões podem também fazer parte deste rol.
Cuidado, fujam desses falsos bons moços! Eles estão por toda a parte: no cafezinho da cantina, onde fazem uma indagação qualquer de maneira aparentemente despretensiosa, na mesa do bar (ouvem muito e falam pouco), nas reuniões, nas rodas dos eventos e de festas institucionais - apresentam-se discretamente, muito mais com o intuito de captar do que para se divertir e por isso bebem pouco, invocando que o fazem socialmente (risos). Triste, mas verdade. Melhor esquecê-los ou ignorá-los.
O pior não é isso. Os que integram o poder decisório das organizações muitas vezes “compram” estas informações e carregam-nas anos a fio, disseminando-as sem, contudo, checarem o que estes bons moços repassam. Distantes da realidade alimentam-se de inverdades ou meias verdades. Certa feita li em um compêndio de administração que ensinava os executivos a visitar o “chão de fábrica”, pois neste espaço é onde se abrigam a realidade das organizações. É a chamada gestão do andar por aí. Desprezá-la é mascarar qualquer outra forma de diagnosticar e conhecer o desempenho de pessoas e processos, concluía o seu autor.
Não nos livraremos dos Judas, seja no mundo corporativo, seja na vida pessoal, mas podemos encontrar em Jesus uma lição: Ele perdoava. “O perdão é o óleo num motor... mantém as engrenagens funcionando.” Mas que é difícil isto é.

17 de abr de 2011

Sobre liberdade, palavra e silêncio


Todos os recursos de mídia hodiernamente existentes nos dão a oportunidade de expressarmo-nos quanto aos mais diversos assuntos. Entretanto toda a facilidade e velocidade da informação também nos deixam fragilizados, desnudados em nossa intimidade. É o ônus da liberdade de expressão, seja escrita, seja oral. Quem escreve e fala o que pensa também desfruta de inúmeros benefícios e, dentre eles, é saber que existem pessoas que compartilham dos nossos pensamentos e que, por temor, proteção, “estratégia” ou..., preferem esconder seus mais sublimes sentimentos. É legitimo, é democrático, é um direito... Aí outros seres têm que fazer este trabalho. Certamente eu fui escalado para tal finalidade, disse-me certa feita uma pessoa que realizou a leitura de nosso papel neste plano.
Trouxemos a baila o tema, por assim dizer, uma vez que ao longo da trajetória de nossas vidas fomos ou ainda somos oprimidos (todos nós, indistintamente), muitas vezes, por professores, chefes (estes nem se fala), amigos, pais, etc. nos desestimulando a não falar ou escrever sobre assuntos delicados ou polêmicos, invocando que o silêncio nos protege, principalmente dos poderes de toda espécie, sejam políticos, financeiros ou organizacionais. Uma verdade relativa.
Aprendemos, até porque é da nossa essência como seres humanos reagir em caso de simples ameaça, que a liberdade (de expressão, de ir e vir, etc.) é um bem essencial da vida e sem ela não conseguimos viver e sim sobreviver. Assim, exercê-la em sua plenitude e com a toda a força é primordial, pois pensamos que o silêncio absoluto é o alimento que necessitam todos os transgressores e aproveitadores para manterem-se no poder. É claro que essa não é a única forma, pois as mentiras, a falsidade, também integram este rol de “matérias-primas” que sustentam os poderosos de todas as matizes, tanto na esfera política como nas organizações.
Não defendemos que os que silenciam por convicção, por traços da personalidade ou por quaisquer outros motivos transformem-se em verdadeiros transmissores de seus pensamentos de forma freqüente e ostensiva.  Entretanto, quando das profundezas de seu mundo interior advir sentimentos que brotam de forma genuína e pura e que, por meio da palavra, seja oral, seja escrita, alcança-se um resultado que beneficia o interesse coletivo ou corrige injustiças, decerto não se deve tergiversar nestas ocasiões, pois é provável que o silêncio venha a robustecer as injustiças e os interesses privados.  
Ensinaram-nos também que, às vezes, o silêncio é a melhor resposta, pois quando se está presente fisicamente e o número de interlocutores é ínfimo, os olhos e os gestos podem fazer o papel das palavras. O silêncio igualmente pode gritar e ser eloqüente.
“Palavras e silêncios, que jamais se encontrarão.”

15 de abr de 2011

A DERIVA

Embora cientificamente não se possa comprovar, acreditamos que a grande maioria dos brasileiros nutria por certo partido político a simpatia e até o respeito, ante as bandeiras empunhadas na defesa da ética, da moral, da cidadania, da transparência e do respeito à coisa pública, em inúmeras ocasiões em que a democracia e, sobretudo a liberdade de expressão, se encontravam ameaçados. Integrávamos este contingente.
Não queremos fazer aqui a oposição visceral e travestir-se de falsos moralismos para achincalhar ou atingir pessoas, mas é fato que assistimos nestes últimos anos uma série de acontecimentos e de comportamentos que nos deixam entristecidos, para não dizer decepcionados, pois literalmente fomos traídos. Aqueles que tanto defendiam os aposentados votaram pela manutenção do fator previdenciário e, um deles, hoje é Senador da República, como tantos outros que se reelegeram esquecidos dos compromissos pretéritos e abrigados no poder financeiro do partido ou de grupos a ele ligados.  Hoje não mais necessitam dos grupos sociais que os elegiam por devoção à causa. Foram cooptados pelos tapetes e poderes de toda a espécie que os palácios lhes proporcionam. Tudo isso não é mais novidade para ninguém, mas como no Brasil somos esquecidos, sempre é bom manter a chama da lembrança acesa.
A infiltração do poder em estatais é gritante e até simples nomeações da área operacional sofrem interferências da classe política, que num passado nem tão distante eram veementemente condenados. Hoje os critérios técnicos são desprezados sem nenhum pudor e, para mascarar a ofensa, alternam as nomeações políticas com aquelas que atendem aos requisitos pré-definidos pela estrutura organizacional. Nem a iniciativa privada escapa. O exemplo mais recente é o da Vale do Rio Doce, embora aí estejam escamoteados interesses inconfessos...
Não há, neste momento, no País, uma estrutura partidária capaz de fazer com que o cidadão se sinta parte integrante da defesa de princípios e de bases que serão tuteladas por todos que fazem o partido, independentemente de estarem ou não no poder. A imprensa estarreceu-se com as declarações do Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, dizendo que não era de direita, de esquerda, nem de centro. Uma verdade, pois os políticos atuais estão preocupados não com ideais, mas com um projeto político de poder individual e por último do grupo a que pertencem. É simples, assim.
Como diz um amigo meu analisando o contexto político, não só a nível nacional, mas também internacional, diante dos conflitos ora em curso: “Após um embate político, no seu resultado há apenas a troca de grupos de corruptos, independentemente do local. Sai uma facção e entra outra pronta a extrair do Estado tudo o que puder para manter-se no poder e beneficiar-se privadamente. Nada muda, é tudo hipocrisia.” Uma verdade triste de se aceitar. Encontraremos novos “abrigos”... e caminhos para o nosso País ? Eu tenho fé, otimismo e esperança, se bem que esta palavra venceu o medo, mas não venceu o que de mais danoso existe neste País, o compadrio, a corrupção, o jogo de interesses, o fisiologismo, enfim...